quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Agricultores reduzem dependência do tabaco, mas cultura ainda tem os maiores ganhos

Diversificação das lavouras ainda esbarra na questão econômica após 10 anos da ratificação da Convenção-Quadro
Com os braços repletos de folhas de tabaco recém colhidas, Clóvis Bartz, 41 anos, deposita a produção na carroça puxada pelo trator e calcula a renda da safra cultivada em quatro hectares na Linha João Alves, no interior de Santa Cruz do Sul. Há sete anos na atividade, depois de abandonar a lavoura de hortigranjeiros, o produtor conseguiu investir na propriedade e melhorar a qualidade de vida da família. No mesmo período, passou a plantar milho e a criar suínos e peixes em outros quatro hectares. Feitas as contas, mesmo com a diversificação, é ainda o fumo que põe na mesa o maior percentual da renda: cerca de 75%. Para tocar a propriedade, Bartz conta com a ajuda da mulher, Neusa Stolben, 38 anos, e de outros integrantes da família no período da safra, como pai, Ênio Bartz, 69 anos. Ao longo do ano, o casal se divide nas atividades, que vão desde cuidar da criação de animais ao preparo do solo que recebe o plantio de tabaco e de milho. — Estamos diversificando com mão de obra própria, mas é difícil encontrar cultura mais rentável em uma área pequena como a nossa — afirma o produtor. A tentativa de Bartz em diversificar, freada pela dependência econômica do tabaco, retrata parte da realidade dos 80 mil produtores gaúchos de fumo. Passados 10 anos da ratificação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco pelo Brasil, encontrar alternativas viáveis a essa cultura é ainda o grande desafio do segundo maior produtor mundial e líder em exportações desde 1993. — Uma coisa é diversificar, e isso o produtor tem feito, até porque a pequena propriedade dificilmente sobrevive com apenas uma cultura. Outra coisa é encontrar uma atividade que dê o mesmo retorno do tabaco — pondera Benício Werner, presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). A lavoura do produtor gaúcho é diversificada. Segundo a Afubra, apenas 16% das áreas das propriedades são ocupadas com fumo. O restante é reservado para outras atividades, como cultivo de milho, feijão, criação de animais, açudes e florestas. Mas quando o assunto é renda, o fumo desbanca as demais alternativas. Em 2005, segundo a Afubra, 63% da receita de propriedades familiares com lavouras de fumo vinha do tabaco. Uma década depois, a dependência caiu para 43%. — Esses 20 pontos percentuais migraram para produção de leite, suínos, aves, frutas e verduras, além de negócios de agroindústrias — exemplifica Werner. Os investimentos em outras atividades resultaram na diminuição da área plantada no Brasil em 10 anos, de 439,2 mil hectares para 342,9 mil hectares. O número de fumicultores também caiu neste período, de 100 mil para 80 mil famílias produtoras no Estado. Garantia de mercado estimula a permanência Com propriedades de 15 hectares, em média, os fumicultores gaúchos resistem a diminuir a dependência da cultura pelo rendimento e garantia de mercado. Em sistema integrado de produção com as indústrias fumageiras, os agricultores recebem assistência técnica e têm preço por arroba pré-estabelecido, conforme a classificação da folha. — Além de ter um produto que gera renda alta por área, o fumicultor tem a garantia de venda, sem se preocupar com logística para entregar a produção — avalia Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco). A diferença de rendimento aparece em uma conta simples. Ao colher cem sacas de milho por hectare, Clóvis Bartz, de Santa Cruz do Sul, 41 anos, fatura cerca de R$ 3 mil. O mesmo hectare cultivado com fumo chega a quase R$ 20 mil — ao receber em média R$ 122 por arroba (15 quilos). — Se não plantasse fumo, hoje provavelmente teria de migrar para a cidade com a minha família — conta Bartz, que tem 40% da lavoura de fumo irrigada por aspersão, faz correção de solo e tem floresta plantada, com a qual abastece de lenha os fornos de secagem da folha. Maior produtor nacional de fumo, com 330 mil toneladas anuais, o Rio Grande do Sul processa atualmente quase 80% de todo o tabaco brasileiro, grande parte em indústrias localizadas no Vale do Rio Pardo. Mais de 80% da produção nacional % é exportada. — Enquanto houver demanda por tabaco no mundo, continuaremos sendo um grande produtor. Se nós não plantarmos, alguém irá plantar — resume o presidente do SindiTabaco. Data de Publicação: 28/01/2015 às 16:30hs Fonte: Zero Hora

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