Publicado em 06/08/2019 15:51 e atualizado em 06/08/2019 19:11
Entrevista com Flávio França Jr. - Chefe do Setor de Grãos da Datagro Consultoria
Flávio França Jr. - Chefe do Setor de Grãos da Datagro Consultoria

O Brasil tem algo entre 20% e 25% de soja da safra velha e a tendência, depois dos últimos acontecimentos, é de que esse volume se valorize nos próximos meses, como explicou o chefe do setor de grãos da Datagro, Flávio França. Segundo ele, "não haverá sobra, não temos uma grande abundância de soja", e os chineses, neste momento, estão novamente focados no mercado brasileiro.
O executivo explica que desde o final da última semana, quando Donald Trump anunciou novas tarifas sobre mais produtos chineses, a nação asiática, que já não se mostrava tão presente, voltou às compras no Brasil. E apesar de um dificuldade na contabilidade desses volumes, as últimas aquisições da China teriam ficado na casa de 1 milhão de toneladas.
No entanto, França afirma que depois das atitudes dos dois países na guerra comercial, o momento ficou ainda mais incerto exigindo ainda mais cautela por parte do produtor brasileiro. "Ele já aproveitou muito, e aproveitou bem, mas agora precisa ter atenção", diz. E mais do que isso, ainda reforça a incerteza enorme que segue pairando sobre a nova safra dos Estados Unidos.
"Estamos tratando da demanda, mas e a oferta? Qual o número real da safra norte-americana? Meus contatos nos EUA afirmam que as estimativas de julho para soja e milho são muito altas e que estes números deverão ser revisados para baixo. E no dia 12 de agosto temos o novo relatório do USDA", lembra o representante da Datagro. "Então, podemos ter uma reação pela Bolsa de Chicago caso haja uma surpresa do lado da oferta.
GUERRA COMERCIAL X CÂMBIO
Para Flávio França, a China, ao permitir a desvalorização de sua moeda como reposta aos EUA, elevou o nível da retaliação, o que pode causar danos ainda mais sérios e profundos na economia mundial. "E é assim que o Brasil pode perder, no macro, com toda a economia global sofrendo", diz.
E os primeiros 'respingos' dessa intensificação do conflito pôde ser sentida também no mercado cambial brasileiro, com uma variação positiva de quase 2% somente nesta segunda-feira (5). Já nesta terça, a moeda americana frente ao real testou algumas baixas para uma correção, mas terminou o dia com estabilidade e ainda valendo R$ 3,95. E esse é outro fator que beneficia os negócios do Brasil com a China, uma vez que torna os produtos nacionais ainda mais atrativos e competitivos diante do comprador do país asiático.
"E por isso o produtor brasileiro tem que estar atento e aproveitar o câmbio, porque é o câmbio que está fora do eixo", diz França. "Porque esse sim pode cair, porque depende da cena política interna também e de como vai acontecer a votação da reforma no segundo turno da Câmara. Além disso, não sabemos qual será o teor da resposta americana à China e quando ela chega", completa.
POSICIONAMENTO DA CHINA FRENTE AOS EUA
O site chinês China Daily soltou, nesta terça-feira, uma outra nota reforçando o posicionamento do governo da China sobre as acusação dos EUA de que não estariam adquirindo produtos agrícolas norte-americanos. E a nota é enfática ao dizer que os chineses não estão evitando produtos agrícolas norte-americanos.
Em entrevista à publicação, Hong Junjie, professor de comércio internacional da Universidade de Negócios Internacionais e Economia em Pequim, explica que a China vinha fazendo uma série de ajustes em sua cadeia de suprimentos no mesmo momento em que vinha buscando produtos com preços razoáveis nopos Estados Unidos. E esses ajustes seriam, em sua maior parte, motivados justamente pelo conflito comercial.
"Esta medida não só aumentará sua segurança alimentar, mas também poderá melhorar ainda mais a qualidade dos produtos agrícolas, trazendo ao seu povo mais opções de produtos agrícolas de todo o mundo", diz o professor.
Complementando as opiniões de Junjie, o vice-presidente da Sociedade da China para Estudos da Organização Mundial do Comércio, Huo Jianguo, explica, também ao China Daily, que "os EUA devem estar cientes de que a compra de produtos agrícolas pela China é baseada apenas em preços razoáveis de mercado e boa qualidade, e o país certamente tem muitas opções nos mercados globais".
E é nesse momento em que o Brasil é ainda mais beneficiado. Afinal, a demanda chinesa não tem se mostrado forte somente no setor de grãos e demais matérias-primas alimentares, mas também em produtos finalizados este ano, como as carnes. O surto de Peste Suína Africana que acomete a nação asiática provocou um desequilíbrio em sua produção e aumentou sua demanda por carnes importadas, e as proteínas brasileiras têm se destacado.
No acumulado do ano até julho, as exportações brasileiras de carne bovina registraram um aumento de 20% e, boa parte desse crescimento se deve a maior participação da China nas compras.
"Através da cidade estado de Hong Kong e do continente, a China importou 377.961 toneladas até julho de 2019, contra 374.219 no mesmo período de 2018. A receita foi de US$ 1,48 bilhões neste ano e de US$ 1,52 bilhões no ano passado", informa a Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos).
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No Estadão: 'EUA deram segundo passo em acirramento da guerra comercial', diz Barral
A decisão dos Estados Unidos de classificar a China como manipulador cambial, na última segunda-feira, 5, após uma forte desvalorização do yuan (a moeda chinesa) em relação ao dólar, em plena guerra comercial, deve fazer com que o governo Trump busque, legalmente, novas formas de impor tarifas ao país asiático, avalia o ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento e sócio-fundador da consultoria BMJ, Welber Barral.
Ele também diz acreditar que a medida pode ter o efeito contrário ao desejado pelos Estados Unidos, levando a uma desvalorização da moeda chinesa e ao acirramento doconflito comercial entre os dois países. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado.
Leia a íntegra no site do Estadão.
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Por: João Batista Olivi e Carla Mendes | Instagram @jornalistadasoja
Fonte: Notícias Agrícolas
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