sábado, 4 de abril de 2015

Homem usa parafina e até fogo para limpar ouvidos de moradores na BA

Edição do dia 03/04/2015 04/04/2015 00h24 - Atualizado em 04/04/2015 00h24 Homem usa parafina e até fogo para limpar ouvidos de moradores na BA Seu Santinho é um dos moradores da comunidade do Capão, lugar mágico na Chapada Diamantina que atrai quem ama natureza, paz e sossego. Globo Reporter
Viajar pela Chapada Diamantina é seguir o caminho de belas montanhas. As muralhas de pedra exibem o rastro do tempo: 400 milhões de anos já se passaram desde que os paredões emergiram do fundo do mar e foram ganhando novas formas com a chuva e o vento. Até hoje este pedaço do Brasil tem segredos e mistérios que parecem inesgotáveis. Lugares que desafiam o relógio, que desprezam a correria das metrópoles. A equipe do Globo Repórter foi descobrir os sabores e segredos deste recanto da Chapada Diamantina chamado Vale do Capão – onde o tempo passa bem devagar; Marcos Monteiro, empresário: O Capão é um lugar que tem uma natureza muito forte, além da beleza, ele tem uma energia que contagia. Globo Repórter: Quem vive aqui nesta região vive bem, né? “Eu acho que vive até mais, viu? Além do necessário porque a tranquilidade é muito grande aqui”, afirma Dona Nena. Globo Repórter: Aqui se vive mais feliz? Sonia Cristophe, professora: Do meu ponto de vista sim! A gente vive mais feliz, mais tranquilo, em contato com a natureza. “O que realmente me tocou profundamente é a beleza deste lugar, um lugar extraordinário. Aqui chove muito. É diferente do que a gente pensa do interior da Bahia, do Nordeste. Aqui sempre ficou verde. O capão é um lugar onde a natureza está muito marcante”, diz o médico Áureo Augusto. “Isto tudo traz uma coisa boa no coração, uma coisa boa nas pernas, de estar enraizado na terra”, diz a professora Sonia Cristophe. “Aqui tem uma conexão mais com você mesmo. Quando você para, quando você contempla a natureza, quando você olha para o céu, quando você, mesmo no seu dia a dia de trabalho, respira, ouve este silêncio”, conta a empresária Vania Meireles. “Para mim este lugar é assim: sagrado. É um lugar que eu venho fico aqui quieto, pensando na vida ou não pensando, fazendo silêncio”, diz o médico Aureo Augusto Caribé. Baiano de Salvador, médico clínico que vivia estressado com a rotina corrida de hospitais e plantões - até o dia em que o doutor Áureo Augusto resolveu largar tudo e ir morar no Capão. E isso foi há 31 anos. Globo Repórter: O que lhe trouxe para cá? Áureo Augusto: Quando eu vim morar aqui tinha anos e anos e anos que eu tinha vontade de morar no campo. Globo Repórter: Exercer a medicina aqui, dá prazer? Áureo Augusto: Dá um prazer muito grande pelo fato de ser uma comunidade pequena. Inclusive porque têm estas montanhas ao redor, dá um sentido muito de família. Quando o doutor Áureo chegou, o Capão não tinha mais que 900 moradores. Hoje, três décadas depois, a população dobrou. Muita gente que foi embora voltou e muita gente de fora se mudou para lá. É que a magia daquele lugar atrai quem gosta da natureza, de paz e sossego. Foi o que aconteceu com o casal Marcos e Vânia. Vânia Meireles, empresária: A gente se encontrou e veio pra cá foi para construir uma história de mais paz, de mais qualidade de vida. Marcos Monteiro, empresário: Por ser um vale, tudo reverbera aqui dentro, fica aqui. Tudo acontece aqui muito próximo, tudo muito próximo. O ambiente cercado de belezas e boas energias, favorece a troca de ideias e a mudança de hábitos. Sonia Cristophe, professora: A gente chegou aqui e era difícil você encontrar uma horta para comprar as verduras. O pessoal ainda não tinha ainda muito valorizado isso. Elizete Guanaes de Souza, dona de casa: Agora, eu como bastante verdura, fruta. Antes eu comia muita besteira. Agora, não, eu faço a minha alimentação saudável. Sonia Cristophe: Hoje, se você andar por aí, você vai ver que quase em cada quintal tem uma horta. Globo Repórter: Doutor, que nota o senhor dá à saúde dos moradores do Capão? Áureo Augusto: Olha, eu dou hoje uma nota sete! Não dou dez porque ainda temos muito, todos nós muito que evoluir. Mas se eu comparo com o que eu cheguei aqui, é realmente uma coisa muito diferente. Globo Repórter: Hoje em dia, aqui no Capão, você não encontra pessoas desnutridas. Áureo Augusto: As pessoas aqui comem salada, bastante salada. Não era assim mas isso foi se transformando no decorrer destes anos. E a população é uma população que consome vegetais. E isso fez com que a saúde melhorasse muito. Eu peço exames com certa frequência, é muito raro eu encontrar uma pessoa do Capão com anemia. A couve é uma coisa muito consumida no Capão, brócolis é muito consumido, alface, tomate. Sem agrotóxico. Dona Nena prepara pratos deliciosos e típicos da região. Dona Nena ainda era criança quando começou a cozinhar ajudando a mãe. Há 33 anos, começou a vender almoço para reforçar a renda da família. Aos 74 anos, Dona Nena guarda no fogão a receita da felicidade. “Eu sou uma cozinheira feliz, meu filho, muito feliz”, conta Dona Nena. Ela fala de um prato que é típico da região: o frango caipira com godó. Dona Nena: Pimentão, cebola, cheiro verde, tomate, carne de sol, alho, hortelã. Globo Repórter: E o godó é à base de banana? Dona Nena: Banana verde. Banana verde cortadinha de cubinho. Faz o tempero separado porque a carne de sol é dura. Faz o molho da carne de sol com todo o tempero e aí mistura no godó. Vai pra dentro do tacho a banana já está cozida. E aí tá pronto! E a galinha caipira acompanha o godó. Prato que a gente só experimenta na Chapada Diamantina. Como esta região é preciosa! Os garimpos ficaram para trás, mas a bela paisagem é um presente da natureza para a vida toda. E quem é de lá sabe dar valor a este patrimônio. “O povo do Capão é muito aberto à novidade e que assume rapidamente aquilo que acha legal. Eles ficam prestando atenção. E eles mudam naquilo que eles percebem que realmente vale a pena”, conta o médico Áureo Augusto. O próprio doutor Áureo mudou muito depois que foi para lá. “Eu aprendi muito com esta comunidade. Aprendi muito em termos de vida e aprendi em termos terapêuticos. A pessoa que vai para a consulta no posto, eu posso receitar medicações, claro, mas também eu posso também, muito frequentemente. Eu receito alimentação em todos os casos, mudança de alimentação, para corrigir certos distúrbios. E plantas medicinais. Tem uma quantidade enorme de usos de plantas medicinais que foram pessoas como o Santinho e essas pessoas que estão aqui trabalhando que me disseram, que me informaram e eu anotei e estou usando”, conta Áureo Augusto. Seu Emiliano – ou Seu Santinho é um dos responsáveis pela horta de plantas medicinais que a comunidade do Capão cultiva. E aprendeu uma técnica de limpeza de ouvido bem diferente. A limpeza é a base de parafina. Espalhada em uma pequena folha de papel, ele faz um cone. “Eu limpo o meu ouvido com o Santinho. E ele funciona porque, quando você toca fogo no cone, você aumenta a temperatura interna do cone. Então, aquele ar quente tende a subir e isso faz uma sucção”, explica Áureo. Funciona mesmo, mas tem um detalhe importante: a limpeza só pode ser feita se pessoa não tiver nenhuma inflamação no ouvido.

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