Tangará da Serra enfrenta a maior crise hídrica da sua história. Para a Defesa Civil, guardada às devidas proporções, a situação é comparada à vivida pelo município de São Paulo em 2014 e 2015, quando o Sistema Cantareira, reservatório responsável pelo abastecimento de água de cerca de 8,8 milhões de pessoas, quase entrou em colapso devido à estiagem. “Este ano, 21 municípios de Mato Grosso passaram por dificuldades com a falta de chuvas. Mas a demanda por uma ação humanitária emergencial rápida só ocorreu em Tangará”, confirma o secretário-adjunto de Proteção e Defesa Civil, tenente-coronel BM, Abadio da Cunha.
Ontem, 22 caminhões-pipa foram encaminhados pela Defesa Civil para atender, com água potável, a população estimada em 100 mil habitantes. “Não estamos enviando água de Cuiabá para Tangará. Lá os caminhões vão captar água dos poços artesianos. O grande problema de Tangará é que o nível do Rio Queima Pé, responsável pelo abastecimento da cidade, está muito baixo e não consegue atender a atual demanda”, explica o tenente-coronel. “A Estação de Tratamento de Água (ETA) foi construída há 30 anos e nesse período a população cresceu de forma desordenada e não houve planejamento para ampliar esta rede de captação de água”, avalia.
O município tem 39 anos mas, segundo o diretor de Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Samae), Wesley Lopes Torres, o acompanhamento da distribuição das chuvas só começou a ser feito pela Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) em 1981. “A série histórica nunca registrou uma seca tão drástica. Para se ter uma ideia, desde fevereiro estamos percebendo redução no volume de chuvas, quando no ano passado foram registrados 354 mm de água no município e em fevereiro deste ano foram 158 mm de chuva. Em abril também houve registro da redução das chuvas. Em 2015 foram 275 mm de água e em 2016 só 81 mm”, cita. “Para se ter uma ideia da gravidade da seca que estamos enfrentando em Campo Novo do Parecis este mês de outubro já choveu 400 mm e em Tangará 46 mm”, compara.
Segundo a professora da Unemat, Edenir Serigatto, que pesquisa manejo de bacia hidrográfica, a crise hídrica enfrentada por Tangará da Serra é uma realidade que pode atingir todo o Centro Oeste. “Tangará tem registrado chuvas a baixo da média e somadas as áreas agrícolas degradadas, sem manejo adequado do solo, a água que cai da chuva não é absorvida e assim deixa de abastecer o aquífero da região. E mesmo quando as chuvas chegam, o solo fica saturado rapidamente, ocorrendo as enxurradas, quando a água vai sem beneficiar as nascentes dos rios e o lençol freático.
Para entender melhor é preciso pensar em uma esponja, que assim que fica encharcada de água deixa o restante escorrer”. Para a pesquisadora, a saída está na conscientização ambiental. “O problema é que o meio ambiente sempre é esquecido. O governo precisa fazer uma fiscalização ambiental adequada nas áreas produtoras, cobrar a contenção de estradas vicinais, a recuperação de áreas degradadas, a proteção das nascentes de rios. Se esta mentalidade não mudar ficaremos sempre dependendo da ajuda do divino”, critica.
Durante toda a manhã de ontem, integrantes do Comitê de Bacia Hidrográfica do Sepotuba estiveram reunidos na prefeitura de Tangará da Serra para traçar medidas para enfrentar a crise hídrica no município. Segundo o diretor da Samae, o município já vem realizando o abastecimento de água potável com 13 caminhões-pipa locados pelo Executivo, entretanto não estavam conseguindo atender a demanda. Com a chegada do reforço dos 22 veículos a situação deve ser amenizada. “Primeiro vamos levar água até as residências e depois para a ETA da cidade”, explicou. “Recebemos apoio da Defesa Civil, por meio da Secretaria de Estado das Cidades, que já iniciou estudos para novos serviços de captações de água. Enquanto isso, estamos aguardando a homologação, por parte do Governo do Estado, da decretação de emergência”.
Torres lembra que o município emitiu dois decretos devido à estiagem. O primeiro foi feito no mês de agosto e teve foco no pedido de racionamento de água para a população e outro emitido no início da semana que solicita ajuda do Estado. “Além desse pedido de ajuda ao Estado estamos fazendo ações pontuais como a captação de água de outros córregos e represas acima do Rio Queima Pé. Esperamos que com a regularidade das chuvas os dois reservatórios que estão sem fase de acabamento fiquem abastecidos e a situação se normalize. O que precisamos agora é de solidariedade da população. Aqueles que tiverem poços artesianos e que puderem atender vizinhos e amigos que assim o façam e precisamos de voluntários também para auxiliar na distribuição da água”.
Os interessados em se voluntariar podem procurar a unidade da Samae do bairro Vila Alta, ou ligar no 065 3311-6509. O boletim Clima Tempo prevê para quinta-feira, em Tangará da Serra, o aumento de nuvens de manhã, pancadas de chuva à tarde e à noite, com 80% de possibilidade de chuva. Porém, só volta a ter chances de chover na segunda-feira (60%). Por meio da assessoria, a Secid informa que estuda três possibilidades para sanar, emergencialmente, o problema: a perfuração de poços na área urbana; a construção de uma nova captação de água no Rio Sepotuba e a readequação da represa do Rio Queima Pé, que atualmente atende o abastecimento local, mas está com baixa capacidade para suprir a demanda.
A Defesa Civil afirma que 21 municípios de Mato Grosso enfrentam problemas com a estiagem (veja quadro) em 2016 e alerta que outros podem passar pelo problema. As regiões mais áridas em Mato Grosso são o Araguaia e o Norte.
Fonte: Só Notícias/Agronotícias
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